Inclusão e sustentabilidade: como o Centro de Treinamento da Abapa transforma o campo

Inclusão e sustentabilidade: como o Centro de Treinamento da Abapa transforma o campo

Por: Laura Vitória Oliveira Sousa

O avanço da tecnologia no agronegócio tem aumentado a necessidade de profissionais preparados para lidar com máquinas cada vez mais modernas e processos operacionais complexos. Em Luís Eduardo Magalhães, no Oeste da Bahia, o Centro de Treinamento da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) aposta na qualificação profissional e no uso de novas tecnologias para atender às demandas do campo.

Criado em 2010, o centro começou suas atividades voltado principalmente para as cadeias da cafeicultura e do algodão. Com o passar dos anos, a atuação foi ampliada e passou a atender diferentes necessidades do setor, incluindo agricultura familiar, operação e manutenção de máquinas agrícolas e normas regulamentadoras de segurança do trabalho. A unidade também recebe profissionais de outros estados que integram o Matopiba.

A formação profissional tem impacto direto na região. Segundo Juarez Moraes, representante do Centro de Treinamento da Abapa, mais de 100 mil alunos já foram capacitados pela instituição em diferentes estados. “Já formamos mais de 100 mil alunos em toda a região do Matopiba, não só na Bahia, mas atendendo Piauí, Maranhão e Tocantins”, destaca.

                                    Foto: ABAPA/Divulgação

A necessidade de ampliar essa formação também está relacionada às demandas do próprio mercado de trabalho. Mesmo com o crescimento da cotonicultura e de outras atividades agrícolas na região, ainda existem funções que não conseguem ser preenchidas pela falta de profissionais qualificados. De acordo com Deibi Soares, profissional do Centro de Treinamento da Abapa, é preciso também ampliar a visão sobre as oportunidades existentes no agronegócio. “Por vezes as pessoas acham que só fazer o curso de agronomia que já vai estar encaixado no mercado de trabalho, sendo que tem outros setores também que têm uma carência muito grande aqui dentro”, explica.

Segundo Deibi, a procura por determinadas tecnologias também pode criar uma visão distorcida sobre as oportunidades profissionais no campo. Ele cita o uso de drones como exemplo e explica que, em propriedades de grande extensão, como as encontradas na região Oeste da Bahia, outros equipamentos ainda são fundamentais para as atividades agrícolas. “Pelo menos na região Oeste, por exemplo, o drone não é um equipamento que tem uma eficiência como, por exemplo, um avião, como um pulverizador, porque aqui são áreas gigantes”, afirma.

A realidade das grandes propriedades também abre espaço para profissionais capacitados em diferentes áreas. Além de operadores de tratores, pulverizadores, plantadeiras e colheitadeiras, há demanda por trabalhadores ligados à segurança do trabalho, ao monitoramento de campo e às áreas técnica e administrativa. Para Deibi, essas oportunidades mostram que o agronegócio não depende apenas de profissionais formados em agronomia. “Então hoje, dentro do agro, há possibilidades para todas as cadeias. Então desde a parte de saúde, segurança, administração e técnico-agrícola principalmente, tem muitas vagas”, destaca.

A diversidade de funções também acompanha a quantidade de informações geradas ao longo da cadeia produtiva. Segundo Deibi, desde a produção até a comercialização do algodão, diferentes profissionais participam dos processos. “Para você tirar hoje o algodão do Brasil para mandar para a China, passa por vários escritórios, vários laboratórios. Muitos dados são gerados nesse processo, então precisa muito de administrador, contador, que são setores fundamentais também dentro do agronegócio”, explica.

                                Foto: ABAPA/Divulgação

Entre as ferramentas utilizadas durante as capacitações estão os simuladores de máquinas agrícolas. A tecnologia permite que os estudantes tenham contato com situações encontradas no campo antes de operar os equipamentos em uma lavoura. De acordo com Deibi Soares, profissional do Centro de Treinamento da Abapa, a experiência possibilita que o aluno pratique em um ambiente seguro. “O aluno tem a experiência imersiva de estar operando uma máquina real no campo, mas dentro de um ambiente 100% seguro e controlado”, explica.

Além de aumentar a segurança durante o aprendizado, os simuladores também contribuem para reduzir o consumo de combustível e o desgaste dos equipamentos. As atividades reproduzem situações de risco e manobras que fazem parte da rotina dos operadores. “Isso reduz drasticamente o custo com combustível e desgaste de maquinário durante o aprendizado, além de acelerar a curva de conhecimento do operador”, afirma Deibi Soares. Segundo ele, a preparação no simulador também permite que o aluno chegue ao campo com maior familiaridade com o equipamento.

No laboratório de motores e manutenção mecânica pesada, o ensino é voltado para o diagnóstico e a manutenção de equipamentos agrícolas. Os estudantes aprendem a identificar falhas, desmontar e medir componentes, realizar a montagem e fazer a regulagem de motores do ciclo Diesel. As atividades são realizadas com motores reais, semelhantes aos utilizados em tratores e colheitadeiras presentes nas propriedades rurais.

A capacitação também acompanha o crescimento da agricultura de precisão. No laboratório de agricultura de precisão e eletroeletrônica embarcada, os alunos têm contato com equipamentos como receptores GPS, antenas e monitores instalados nas máquinas agrícolas. Segundo o especialista do laboratório, os treinamentos incluem atividades de calibração, direcionamento automático e utilização do sinal de satélite.

A diversidade de conteúdos permite que a formação atenda diferentes perfis de trabalhadores. No mesmo centro em que os estudantes aprendem a trabalhar com sistemas de navegação por satélite, também são realizadas capacitações voltadas para a manutenção de motosserras e roçadeiras. A proposta é atender desde a agricultura familiar até grandes propriedades que utilizam equipamentos automatizados.

A qualificação também está relacionada à eficiência e à sustentabilidade no campo. O treinamento adequado dos operadores e a manutenção correta das máquinas podem contribuir para reduzir o consumo de combustível, evitar desgastes desnecessários e aumentar a vida útil dos equipamentos. Dessa forma, a capacitação profissional também tem reflexos na utilização dos recursos empregados nas atividades agrícolas.


                                 Foto: Laura Vitória Oliveira Souza

Para Juarez Moraes, representante do Centro de Treinamento da Abapa, a formação profissional também possui um papel social. O espaço atua na inclusão de jovens que buscam o primeiro emprego, na reabilitação de trabalhadores e na preparação de pessoas que precisam se adaptar às novas tecnologias. “Atuamos fortemente na inclusão e reabilitação, trazendo pessoas da comunidade, jovens em busca do primeiro emprego e trabalhadores que precisam se readequar às novas tecnologias do campo”, afirma.

Durante a entrevista, Juarez também relaciona o trabalho desenvolvido pelo Centro de Treinamento aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), destacando a importância da atuação conjunta com o Estado e as secretarias de trabalho. A iniciativa busca unir a formação profissional às necessidades do mercado e ao desenvolvimento da região.

                    Foto: ABAPA/Divulgação

Em um setor que passa por constantes mudanças tecnológicas, a falta de profissionais preparados ainda representa um desafio para o agronegócio. Na cotonicultura, onde a demanda por trabalhadores qualificados acompanha o crescimento e a modernização das atividades, ampliar as oportunidades de capacitação é também uma forma de contribuir para que as vagas existentes possam ser ocupadas por profissionais preparados.

Com a união entre educação técnica, tecnologia, sustentabilidade e inclusão social, o Centro de Treinamento da Abapa busca acompanhar as novas exigências do agronegócio e contribuir para a formação de mão de obra no Matopiba. Em uma região onde o campo se torna cada vez mais tecnológico, preparar quem está por trás das máquinas é parte importante do desenvolvimento do setor.















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