Algodão que veste o mundo

 

Algodão que veste o mundo

Da lavoura baiana às indústrias têxteis da Ásia, a trajetória do algodão revela uma cadeia que envolve classificação, rastreabilidade, indústria e consumo até a fibra chegar à roupa.

 Por: Kleiton Brendo Leone de Jesus e Raquel Gomes da Conceição


Na cintura de um jeans azul, um retângulo verde do tamanho de um selo promete contar uma história. "Algodão rastreável", diz a etiqueta, ao lado de um QR code pequeno o bastante para passar despercebido entre o preço e o número do tamanho. Basta apontar a câmera do celular para conferir os elos daquela produção, elos que, quase sempre, começam muito antes da prateleira, numa sala de classificação no Oeste da Bahia.

Leonardo Araújo, classificador da Zanotto Cotton. Foto: ABAPA/Divulgação 

Leonardo Araújo trabalha há pouco mais de um ano como classificador na unidade de beneficiamento Zanotto Cotton, em Luís Eduardo Magalhães. Todos os dias, recebe duas malas de amostra vindas da prensa: uma segue para o laboratório, onde equipamentos medem as características técnicas da fibra; a outra chega até ele, para ser examinada a olho nu. Sobre a mesa, caixas de referência reproduzem um padrão reconhecido em qualquer parte do mundo.

"Aquelas caixas são um padrão universal. A classificação visual em todo lugar que você for vai ser a mesma", explica. O trabalho é minucioso porque precisa ser: cada fardo é avaliado, agrupado por características semelhantes e organizado em lotes homogêneos. "Cada classificador tem um critério diferente. Então, quando eu faço a classificação, eu tenho que manter aquele lote homogêneo, para não haver mistura", afirma.

Depois dele, o classificador do comprador ainda vai conferir tudo de novo. Uma espécie de dupla checagem daquilo que, do outro lado do oceano, chegará como matéria-prima. Antes de ser fio, tecido ou camisa, o algodão  depende da confiança depositada no olhar de alguém da classificação.

Malas de amostragem de algodão. Foto por: Kleiton Leone

Uma potência que nasce no campo

O trabalho dos colaboradores ajuda a explicar por que o Brasil se tornou, pelo segundo ano consecutivo, o maior exportador mundial de algodão. Em 2025, o país embarcou 3,02 milhões de toneladas da fibra, recorde histórico; no ano comercial 2024/2025, os embarques haviam somado 2,835 milhões de toneladas e gerado US$ 4,851 bilhões em receita. Já na safra 2025/26, a produção nacional chegou a 4,25 milhões de toneladas, com 3,2 milhões de toneladas exportadas.

Os números de produtividade impressionam ainda mais: o Brasil colheu cerca de 1.900 quilos de pluma por hectare, mais que o dobro da média mundial, de 907 quilos. China, Índia, Bangladesh, Coreia, Indonésia, Vietnã e Paquistão estão entre os principais destinos da fibra, a "grande parte é tudo Ásia", resume Leonardo sobre o que sai da unidade onde trabalha.

Foto por: Kleiton Leone

O ecossistema por trás da fibra

A força baiana não está apenas no volume produzido, mas no ecossistema que conecta produtores, unidades de beneficiamento e diferentes agentes da cadeia, e é aí que entra a Associação Baiana dos Produtores de Algodão (ABAPA). "A gente tem um ecossistema muito unido, e a Abapa é a grande idealizadora, precursora disso", afirma Alessandra Zanotto, presidente da entidade. Segundo ela, as unidades de beneficiamento se comunicam entre si, enquanto a associação ajuda a construir soluções para desafios que atingem toda a cadeia.

É esse ecossistema que sustenta o trabalho diário de todos colaboradores, desde a lavoura até o consumidor final. Sem padronização e rastreabilidade, a fibra baiana não teria como competir num mercado internacional cada vez mais exigente. "O Brasil é o maior exportador, há dois anos, de algodão do mundo", resume Fernanda Zanotto, diretora da unidade de beneficiamento onde os colaboradores  classificam os fardos, uma liderança que, para ela, é histórica, mas ainda recente.

Para o professor de economia e finanças Antônio Carvalho, o consumidor final identificar essa origem valoriza a economia nacional.  “A rastreabilidade permite garantir um dos aspectos mais importantes para países e regiões produtoras, a “identidade de origem”, aspecto que valoriza, destaca e torna referência o local de produção de um produto e, quanto mais valorizado seja este produto no mercado, maior é o reconhecimento. Sendo o algodão, uma das mais antigas e valorizadas commodities, pairar como um dos maiores e melhores produtores do mundo e Brasil, e nacionalmente a Bahia obtêm ganhos de imagem e econômicos por tal referência.”, aponta.

Por que não sabemos de onde vem o algodão?

Há, porém, algo que não perde a memória daquela fibra. Desde 2004, o sistema SAI usa um código de barras de 20 dígitos para identificar fazenda, prensa e lote de cada fardo, o mesmo tipo de informação que Leonardo ajuda a gerar todos os dias na sala de classificação. A partir de 2022, essa lógica foi ampliada pelo programa SouABR, que tenta acompanhar a fibra ao longo de toda a cadeia: fiações, malharias, confecções e varejistas precisam registrar dados para que o algodão seja rastreado até a peça final.

Os números, no entanto, revelam uma lacuna. Até janeiro de 2026, o sistema contabilizava 209 fazendas, 140 produtores, 87.088 fardos, 7.834.776 quilos de fios e 805.678 metros de tecido registrados, mas apenas 622.922 peças tinham o ciclo completo documentado, do campo à etiqueta. A própria Abapa aponta o motivo: muitos varejistas simplesmente não concluem o registro.

Essa distância também explica porque qualidade e informação confiável se tornaram  centrais quanto ao volume de produção. Segundo Alessandra Zanotto, foi preciso primeiro consolidar esses mecanismos de rastreabilidade antes de ampliar a conexão com as marcas o objetivo é que a informação sobre o algodão não se encerre na porteira da fazenda, mas acompanhe a fibra até chegar, de forma cada vez mais clara, ao consumidor final. 

Alessandra Zanotto, diretora do ABAPA. Foto por: Kleiton Leone

Da passarela à etiqueta

Depois da indústria, outro grupo de pessoas decide o que o Brasil veste: os estilistas. O movimento Sou de Algodão, criado pela Abrapa em 2016, reúne mais de 80 estilistas parceiros e já passou por eventos como São Paulo Fashion Week, Casa de Criadores, Brasil Eco Fashion Week e Dragão Fashion Brasil. Para participar, as marcas precisam atender a critérios de uso da fibra e é o SouABR que permite comprovar, do campo à loja, que essa fibra é a mesma que passou à mesa da classificação meses antes.

Marca da ‘Sou de Algodão’, desenvolvida pelo ABAPA. Foto: ABAPA/Divulgação 

Nos bastidores dessa cadeia, o setor têxtil e de confecção se tornou o segundo maior gerador de empregos da indústria de transformação no país: são 1,3 milhão de empregos formais e cerca de 8 milhões quando somados os postos indiretos. Cerca de 60% dessa mão de obra é formada por mulheres, sobretudo nas etapas de fiação, tecelagem, confecção e varejo. "Nós, brasileiros, somos os maiores fornecedores da nossa própria indústria. A indústria brasileira não importa nada de algodão. O que ela importa são outras fibras para misturar no seu blend", explica Alessandra Zanotto. Um contraste, segundo ela, com o consumo interno de algodão, que não cresce há cerca de uma década no mesmo ritmo das exportações.

Para tentar aproximar produção e consumo, a Abapa também aposta em comunicação. "A gente fala muito sobre o uso das fibras naturais, o benefício do uso da fibra natural. O algodão não é a única fibra natural, mas aqui no nosso espaço, a gente defende as qualidades do algodão", diz Natália Braga, coordenadora de marketing da entidade.

Quem veste o Brasil?

Volta-se, então, à pergunta inicial. Quem veste o Brasil? A resposta não cabe em um nome, envolve milhares de pessoas. O produtor enfrenta clima e pragas no Oeste baiano. O trabalhador que colhe. Quem classifica a fibra e mantém cada lote homogêneo para que nada se perca pelo caminho. O laboratório que mede suas características. O supervisor garante que nem o caroço vá para o lixo. A fiação, a tecelagem, a confecção. O estilista, a marca, o varejista. E, por fim, quem veste.

Uma fibra cultivada no Oeste da Bahia pode ser classificada, prensada, exportada, transformada em óleo ou celulose, enviada a outro continente, convertida em tecido e finalmente reaparecer no Brasil como uma peça de roupa, sem que quem a compra desconfie por quantas mãos ela passou. Diferente dos alimentos, cuja origem já ganhou espaço nas decisões de consumo, a cadeia da moda ainda comunica pouco de onde vêm suas matérias-primas.

Essa invisibilidade não diminui a importância da cadeia. Pelo contrário, mostra o tamanho do desafio de aproximar quem produz de quem consome. É por isso que a Abapa resume seu propósito em uma frase: fazer com que "o algodão brasileiro passe a vestir o Brasil e o mundo" afirma Alessandra Zanotto.

Bandeiras da Bahia e do Brasil na Zanotto Cotton. Foto por: Kleiton Leone


Comentários